Esquizofrenia corporativa.

Vejo dezenas de vagas sendo ofertadas no linkedin, e centenas de profissionais levando muito mais a sério que o necessário as recomendações para “deixe seu perfil em constante atualização”, e pintam cursos e históricos, referências e depoimentos tão sinceros quanto os (saudosos, para alguns) scraps e testimonials do Orkut. Multiplicam-se as mensagens de atualizações de status e perfil, como símbolo da “natural” cultura de que mais é melhor (ou “menos é mais” é uma frase que não serve pro ambiente corporativo?).

Vejo (des) empregados questionando a não contratação por excesso de experiência. Toda semana aparecem nos portais e jornais, reportagens sobre a dificuldade de contratação de empresas de todos os portes por falta de experiência.

Encontrou o erro?

Se não encontrou, desafio você a me dizer que não conhece nenhuma pessoa ou história de amigos de amigos, ou de parentes que reduziram seus vencimentos para que voltassem ao mercado de trabalho e mantivessem a necessidade de estabilidade de pé.

Nesta mesma mão de “preparados desempregados”, temos profissionais indicados em posições chave, levando diuturnamente empresas para o buraco para o qual temos um escapismo mais que bonito (independendo a atual posição do país no ciclo econômico da vez): a crise, o mercado, os outros (o inferno são os outros, aham).

quanto mais em paz conosco, menos perto da esquizofrenia corporativa estamos.

Somamos a isto a constante confusão entre objetivos pessoais e objetivos de negócios (em outras palavras: a sua vida não é o seu trabalho, o seu trabalho não é a sua vida; isso é tudo que patrões de empresas de diversos portes desejam que você pense, e viva numa constante sensação de perigo, o que no fim das contas contribui para que outros modelos de negócios sigam de pé), e enxergo um cenário de completa esquizofrenia.

Contudo, somos vítimas ou autores deste cenário? Somos vilões ou mocinhos da arena corporativa?

A certeza que podemos encontrar é que não tem um dos lados sem reclamar. Patrões, quando não estão reclamando da carga tributária, da concorrência com mercados externos, dos “absurdos que meus funcionários reivindicam”, simplesmente passam o facão para manter seu padrão de vida inalterado. “Farinha pouca, o meu pirão primeiro”.

Os funcionários colaboradores (cof, cof), condições ruins, salários baixos, ambientes complicados, alta competitividade, disputas (de egos) internas, mercado ruim… independendo cargos ou propriedades, todos juntos: o alto preço das coisas, o alto custo dos serviços, e “eu sei que isso poderia ser mais barato”. Quando é pra pagar sim, mas quando é pra receber, não. Quando o funcionário vira patrão, então… “Farinha pouca, o meu pirão primeiro”.

definitivamente, não vale a pena surtar por isso.

É na soma das pequenas e grandes incoerências do nosso cotidiano, que criamos ambientes insalubres física e emocionalmente. Com o trabalho, não só não seria diferente como costumamos dar à ele o título de grande vilão dos nossos dias. Seja pela sua falta, seja pelo seu excesso. Seja pelo chefe ruim, seja pelo empregado preguiçoso. Pela falta ou excesso de tempo.

Sempre tem algo do que reclamamos, contudo, proporcionalmente, temos sido gratos? Temos lembrado que ninguém nos obriga a nenhum tipo de colega de trabalho, de patrão, de empresa, de emprego, de carreira? Temos lembrado que a pressão social para parecer antes de ser vai existir sempre e cabe cada um de nós escolher quanto vamos nos abater com e por ela? Temos lembrado que somos apenas o que quisermos? Ou vamos nos permitir seguir esquizofrênicos, pois reclamar é mais fácil do que assumir a responsabilidade de tornar sua própria vida melhor, mais leve, mais satisfatória apesar do seu trabalho (ou emprego)?

Créditos das imagens (pela ordem de aparição):